Coworking: o modelo comunitário que reinventa o mercado de trabalho

coworking-finalOs desafios para pequenas e médias empresas, hoje em dia, são recorrentes em um contexto de crise econômica, como ocorre no Brasil. As incertezas são muitas e a falta de estabilidade faz com que muitos empreendimentos não consigam se desenvolver da maneira planejada. Nesse sentido, a inovação e as novas ideias são imperativas para que sua empresa tenha a possibilidade de sair do papel e atuar no mercado. Toda crise traz consigo oportunidade para mudanças positivas sejam elas para o cotidiano das pessoas, sejam para criar novas formas de colocar em prática seu negócio. Dessa forma, a FGV Jr. se propôs a trazer detalhes de uma dessas inovações que vem ganhando força desde o início dos anos 2000 no mundo inteiro: o espaço coworking.

Em matéria publicada pela revista Exame em novembro do ano passado, o jornalista Jonas Carvalho nos mostra que “pequenas e médias empresas têm deixado de lado ambientes tradicionais de trabalho para aderir ao coworking, uma nova forma de usar o espaço profissional que agrada a um número cada vez maior de startups”[1]. Esses espaços são práticas comuns nos Estados Unidos e vem crescendo tanto no Brasil, quanto no mundo inteiro – estima-se que existam 2500 espaços coworking, distribuídos em 80 países.

Tabela1. Espaços coworking em alguns lugares do mundo (adapted from The 2013 Coworking Census, by Deswanted.com)

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A ideia do coworking é relativamente simples: profissionais independentes e aqueles que possuem maior flexibilidade dentro do espaço tradicional de trabalho tendem a trabalhar de maneira mais produtiva quando estão juntos do que quando estão sozinhos. Esses espaços são construídos a partir de uma ideia geral de comunidade, sustentabilidade, abertura e acessibilidade. É muito importante ressaltar este último conceito, já que o espaço coworking busca fazer com que as pessoas trabalhem em constante movimento de comunicação e trocas, isto é, mesmo que você esteja dividindo um espaço com pessoas que trabalham com outros segmentos do mercado diferentes do seu, não quer dizer que você não possa aprender algo com ela e por isso você deve estar sempre aberto a ouvir e tentar transformar essas informações em algo positivo para seus próprios objetivos.

Em um contexto de economia globalizada e uma competição cada vez mais acirrada, esperam-se inovações de pessoas criativas e empresas que buscam se diferenciar cada vez mais do modelo tradicional. A Apple, por exemplo, é uma das pioneiras no que se refere a grandes empresas mundiais que está se atualizando e construindo espaços de trabalho mais horizontais e propícios à criatividade. Em 2006, Steve Jobs anunciou a construção de um prédio na Califórnia, com formato circular e com capacidade de abrigar 13.000 funcionários. A estrutura da construção foi concebida dessa forma tendo como objetivo maximizar as interações interpessoais, provendo também espaços abertos, salas de encontro e áreas de relaxamento tendo em mente a socialização de todos os funcionários que ali trabalharão.post-4

Figura 1. Número estimado de espaços coworking no mundo (adaptado de Deskmag)

Nesse sentido, pode-se perceber que os coworking são um fenômeno que acompanha essa necessidade crescente de se diferenciar no mercado. A incerteza de lucratividade pode ser uma preocupação inicial desses espaços, mas não anulam o fato de que a proposta do coworking é uma resposta direta ao que mais se precisa atualmente: inovação. O princípio básico do coworking é simples: serendipidade. Este conceito se refere às descobertas feitas de maneira espontânea, por acaso. Popularizado por um dos pioneiros deste ramo – Chris Messina (Citizen Space) -, o conceito significa a oportunidade de fazer descobertas inesperadas e agradáveis através da comunicação entre os funcionários de um mesmo espaço.

No Brasil, esses modelos de empresa começaram a surgir em 2007 e desde então não param de crescer, sendo que desde 2012 observa-se um crescimento anual de 200%. Com uma simples busca na internet é possível encontrar escritórios de coworking em diversas cidades, mesmo que haja uma concentração nas capitais – a nível mundial essas características se repetem, sendo observado esse acúmulo nas cidades mais dinamizadas do globo. Os preços para entrar com seu negócio ou individualmente variam de R$200,00 a R$800,00, também com serviços que variam como internet, telefone, secretária compartilhada, sala de reunião, serviços e impressão.

Figura 2. Adjetivos mais utilizados para caracterizar o coworking (fonte: Deskmag)

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Finalmente, é interessante colocar essas informações de uma forma que as pessoas compreendam, de fato, o que significa trabalhar em um espaço coworking. Por isso, a seguir transcreverei um relato de uma colega que está há um ano trabalhando no Templo, uma rede de empreendedores que abriga mais de 200 residentes de 60 empresas, localizado em dois bairros do Rio de Janeiro: Gávea e Botafogo.

“A experiência passada que tive no mercado de trabalho foi em um escritório de administração em um shopping do Rio de Janeiro, no qual o ambiente era bem formal e as interações eram restritas às pessoas que você necessariamente tinha que se comunicar diariamente (chefe, subchefe, etc). Além disso, o ambiente era mais ‘frio’, sobretudo no que se refere ao espaço físico do local de trabalho, que era basicamente um escritório. Antes de entrar no Templo, não tinha conhecimento sobre coworking, então não possuía uma opinião formada sobre o assunto. Quando fui contratada pelo Templo, me senti muito acolhida tanto pelas pessoas, quanto pelo próprio ambiente de trabalho. Considero que seja um espaço informal de trabalho, mesmo com regras e burocracias existentes, e também me senti mais livre, pois o Templo propaga a ideia de que as casas dele são para uso de todos os residentes. Cada um tem uma chave das casas e você pode entrar a qualquer momento: se quiser trabalhar de madrugada, porque teve um insight para produzir algo naquela hora, você pode chegar lá para trabalhar. Além disso, troca-se muitas idéias entre os residentes, por se tratar de um ambiente físico acolhedor, com jardim (Gávea) e piscina com churrasqueira (Botafogo). Quando algum residente quer dar um tempo do trabalho nessas áreas ou trabalha no jardim, por exemplo, ele estará entrando em contato com outras pessoas, o que proporciona um ambiente de troca de saberes e experiências que acrescentam tanto para cada pessoa ali dentro, quanto para o próprio Templo. Não são necessariamente conexões de parceria para trabalhos e negócios, mas para amizades também. Por se tratar de um ambiente mais informal, não há uma pressão tão grande como ocorre em outros espaços mais tradicionais. Se eu pudesse definir a experiência de trabalhar num espaço coworking em três palavras, ela seriam: conexões, pois você recebe e dá muita coisa ali dentro, sobretudo conhecimento e afeto com as pessoas;  comunidade, porque esse é o diferencial desses espaços, além do que o bem maior do Templo sempre foi a ideia de comunidade, por se tratar de uma equipe aberta a qualquer situação tendo em vista seu crescimento pessoal e profissional; e, por último, liberdade, já que as casas são muito abertas – o que considero ser um fator muito importante -, característica que faz com que o trabalho não tenha uma conotação de obrigação e cansaço, como ocorreu comigo na experiência anterior que comentei anteriormente. O Templo fornece um espaço onde você pode se sentir livre, ao mesmo passo que está trabalhando, pois oferece essa oportunidade de trabalhar ao ar livre, em um contato fluido e constante com outras pessoas e com a própria natureza. Isso faz com que seu trabalho seja muito mais saudável para si mesmo, sem comprometer o andamento da empresa. ” – Maria Luiza Rosa (residente do Templo)