Slow-Fashion e o consumo consciente

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Por Tamara Balassiano

Você sabe o que é uma slow-fashion?

Em tradução livre, a “moda devagar” consiste em um movimento sustentável que surgiu como alternativa à produção em massa, popularmente conhecida como fast-fashion. Por analogia, compara-se o mercado da moda ao mercado alimentício. Se essa é a primeira vez que você lê sobre o assunto e os fast-food logo vieram a sua cabeça, não se trata de mera coincidência. O movimento da moda sustentável foi inspirado no slow-food e incentiva que tenhamos mais consciência dos produtos que consumimos.

Dito isto, você deve estar se perguntando “mas o que há de errado com as fast-fashion, se, inclusive, é graças aos baixos preços de seus produtos que se tem uma moda mais acessível?”.

Como clientes, julgamos o valor de uma peça de roupa como algo justo, quando esse valor condiz com a nossa realidade financeira e os nossos hábitos de compra. Por exemplo, pagar 90 reais em um vestido pode parecer muito, tendo em vista que esse montante representa 10% do salário mínimo do Brasil. De fato, olhando por esse ponto de vista, não seria justo gastar, então, 500 reais em um vestido sabendo que boa parte da população do país não chega nem a receber um salário mínimo e, ainda, sabendo que o salário mínimo não permite ao indivíduo condições dignas de viver no país.

            Por outro lado, ao realizar uma busca mais profunda nos componentes que somam para que se chegue no valor da etiqueta, 90 reais é pouco. Com 90 reais não se paga a carga tributária incidente na matéria-prima, a matéria-prima, a fábrica, a produção, a energia, a mão de obra qualificada e o imposto sobre as vendas. A conta não fecha e o preço que antes parecia honesto se mostra injusto.

            Para atingir pequenos custos de produção, as fast-fashion compram matéria-prima chinesa, produzem as peças com mão de obra escrava chinesa e importam para o país onde pretendem vender por preços baixíssimos. Sem entrar no mérito da qualidade da costura, mesmo que esse detalhe influencie um pouco na discrepância dos valores entre uma peça vendida em uma fast-fashion e uma similar vendida nas chamadas slow-fashion, fica impossível para um produtor nacional competir com estes preços. Desse modo, além do problema central tratado no texto, esse tipo de mercado tira a chance do pequeno produtor/empresário de prosperar.

Dado o exposto, a sociedade do consumo atual é sustentada por dois pilares: um mercado de informação de moda cada vez mais acessível em tempo real e a extrema facilidade de cópia. Esse fenômeno de aceleração do consumo faz surgir um mercado competitivo, cujas lojas – fast-fashion – vendem peças em grande quantidade e a preços baixos para que os clientes não deixem de continuar comprando na semana seguinte, quando surgir a coleção referente à nova tendência lançada. Assim, essa sociedade financia a escravidão nos países asiáticos.

Uma sociedade do consumo legítima não quer dizer uma moda acessível apenas às elites, mas uma moda cujos preços justos são aqueles coerentes com um serviço que garanta aos seus funcionários direitos trabalhistas e dignidade humana. A desigualdade econômica em questão não está entre uma pessoa de classe média alta e uma pessoa de classe baixa, cujo poder de compra é, logicamente, inferior. A desigualdade está entre pessoas de diversas classes econômicas com um mínimo de poder aquisitivo e aquelas que vivem com menos do que o mínimo necessário e, ao mesmo tempo, são fundamentais para manter ativo o consumismo exacerbado da atualidade. Cabe aqui ressaltar que a China está no topo, ao mesmo tempo, das maiores economias e das maiores populações que vivem abaixo da linha da pobreza do globo.

A vista grossa do governo chinês, aliada a falta de representatividade nos sindicatos, que são sempre ligados ao Partido Comunista da China, permite que as fast-fashion e o próprio país cresçam em cima da mão de obra escrava. Assim, não há punições significativas aos donos das empresas e muito menos aos consumidores, uma vez que não há uma violência explícita e direta entre o consumidor final e o escravo. Importante frisar que a oferta existe para suprir a demanda.

As fast-fashion só se mantém, porque possuem um mercado consumidor fiel e crescente. Mas este cenário está prestes a mudar: o movimento slow-fashion vem ganhando força e veio para ficar.

O desenvolvimento de senso crítico por parte do consumidor, que passa a ter um olhar mais empático e consciente, surge como peça fundamental capaz de gerar mudança. O boicote é real: os consumidores vêm se auto policiando para trocar as tentadoras “made in China” por etiquetas acompanhadas de fotos de quem costurou a peça ou, ainda, por peças de roupa que recebem carinhosamente o nome da costureira, como forma de ressaltar e homenagear seu trabalho.

Assim, para aqueles que querem entrar no mercado da moda e prezam pelo consumo consciente, aconselha-se que invistam em uma slow-fashion. É importante que se tenha em mente que o consumidor está cada vez mais engajado com questões humanitárias e que ele vai procurar por lojas que sejam transparentes no que tange a sua linha de produção. Por este motivo, as campanhas que respondem à pergunta slogan do movimento – como as duas citadas no parágrafo anterior – são tão bem sucedidas.

E você? Quem faz suas roupas?